27.6.09

Bloqueio

Ando sem vontade de escrever. Sem apetite. Nem mesmo você ilumina mais as palavras. Não sei o que anda havendo. Talvez esteja ficando velho pra isso. Velho demais pra dizer bobagens. Sinceramente não sei o que fazer. Não sei mais por onde começar. Nem mesmo agora encontro palavras para seguir adiante. São tantos nãos num só texto que... sei lá. Antigamente tinha você para ler minhas histórias ou pelo menos eu conseguia acreditar que você as lia de vez em quando. Ficava feliz por um comentário ou outro que recebia de meus leitores fiéis. Agora, nada disso me anima. Nada tem a força motivacional de antes. Já não sei para quem escrevo. Para quê escrevo. Como se um dia soubesse... Alguns chamam de bloqueio essa merda que estou sentindo. Sou menos lúdico. Acho que a palavra certa é decepção. Estou triste, decepcionado comigo mesmo. Espremido no cantinho da vida que insisto em levar. Levar para onde? Isso não vai dar em nada! Nunca deu. Não seria agora que um milagre ocorreria. Isso é coisa de cinema. Achar que no fim tudo vai estar bem. No fundo sempre gostei das continuações. Elas vinham para mostrar justamente o contrario. Mostrar que a guerra continuava; que o império contra-atacava. Que nada ficava por aquilo mesmo. Por detrás das letrinhas miúdas que subiam devagar, enquanto jogávamos os caroços mal estourados de pipoca na lixeira da saída, uma vida continuava. Outras aventuras, novos problemas e quem sabe, soluções pendentes no final de tudo, como na própria vida. Pois é no fim que tudo recomeça, não é mesmo?
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— O que estou dizendo?!
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Quem sabe esta merda acabe e Pandora abra sua caixa de vez; quem sabe, nada aconteça e essa história seja apenas mais uma entre tantas outras sem continuação.

21.6.09

Pornógrafo - O Dono

Quem foi que disse que cú de bêbado não tem dono? Tem sim. É meu. Pelo menos o das bêbadas. É a coisa que eu mais gosto de fazer. Tomo meu banho, ponho minha roupinha mais tchan e saio pra cata. Barzinho, boate... Não importa o lugar. Tem sempre uma perdida dando sopa com o tesouro da mamãe. Ontem mesmo papei duas. Saldo baixo alguns podem pensar. Mas não se eu contar como foi. Na verdade nem preciso contar a história. Quem é malandro já sabe o que rolou, e quem é otário... Vá correr atrás pra saber como se faz. Mas só pra ter uma idéia, eu comi as duas na mesma hora. E melhor, eram irmãs... gêmeas. Ou quase. Quero dizer, foi o que pensei logo de início até levar as duas pro estacionamento. É malandro, foi no meio dos carros. Pior, colado na traseira do possante do marido de uma delas. Foi aí que eu descobri que não eram irmãs e sim mãe e filha. Tem noção? Cara de uma, focinho da outra. E aja botox. Mas não sou contra não. No fim das contas a coroa estava melhor que a filha de 17. Depilada de cima em baixo. Cara, as duas de rabo virado pra lua apoiada num Sedan marinho e disputando qual ia me dar primeiro. Eu sou feio, admito. Gordo, baixinho e narigudo. Mas minha lábia só perde pra minha rola. Primeiro meti na mãe. Não valho nada, mas nessas horas, sou educado. As mais velhas tem a preferência e aquela coroa tinha toda a minha preferência. Estava quase mandando a filhinha entrar e pegar uma bebida pra gente de tanto que ela gemia querendo também. Por fim, tirei da dona e parti pra mina. Queria que eu comesse a buceta. Disse que não. A buceta ela que desse pro namoradinho dela. Meu negócio era o cú. Eu só queria o cuzinho. Reclamou dizendo que assim não ia dar. Mas quando olhou pra trás — Surprise! — disse que estava bom, mas tinha que andar logo que o celular estava tocando no bolso. Ele sentia o vibracall tremer-lhe as pernas. Depois viu que não era chamada nenhuma. Elas tremiam por outra coisa. Forcei a barra com a gatinha e, depois que ela terminou, voltei pra mãe. A coroa já estava ajeitando a calça quando eu me virei e disse: Já vai? Agora que eu ia te dar um banho... Há alguns metros à frente, a filha já entrava pela porta dos fundos daquele inferninho, tropeçando nos próprios pés. Só deu tempo de vê-la revirar os bolsos e sacar o celular. Ajeitou a calça no meio do rabo e entrou. Lá fora éramos só eu a e Dona Botox. Parti pra cima e no final não sei como a lataria não amassou. Mas... Sedan é Sedan. A tia acendeu um cigarro com cheiro estranho e me ofereceu. Parecia maconha, mas com um aroma de canela no fundo. Disse que não com a cabeça e levantei o zíper. No chão a poça esbranquiçada diluía-se sobre o piso molhado. Deixei-a com as calças ainda arriadas tentando suspender no meio daquela fumaceira adocicada. Ela estava muito doida. Acho que ficou por lá mesmo, não sei. Foda-se não fui lá pra salvar ninguém. Só fui pra comer o que é meu.

16.6.09

Ressaca

15:32 piscava no canto da sala. O relógio quadrado vomitava um ruído insuportável para alguém que como eu, havia passado da conta outra vez. A cabeça latejava sob o travesseiro flocado, cujas espumas amenizavam como podiam meu sofrimento. O pensamento vagava solto, inútil até bem próximo do aparelho, no entanto, o corpo não respondia a seus convites. Estático, desejava apenas que aquilo parasse, todavia, não contribuía em nada para que o alívio enfim, se instalasse pelo menos por alguns segundos até a mente perceber o emaranhado que se escondia por detrás da incômoda sirene. Uma falange de crianças em férias ocupava o espaço, antes desértico das calçadas em frente, com suas pipas, bolas e tantas outras ferramentas perturbatórias de sonos alheios. Os carros desviados por obras infindáveis de recapeamento soavam ainda mais fortes, apesar da distância em que aquele olho transitório se encontrava. Eu implorava para que o alarme parasse, torcendo no fundo, para que aquilo não acontecesse. Para que ele enfim, não trouxesse a tona, toda aquela turba demoníaca que exalava da cidade. Ah a cidade... A velha amiga. A grande companheira. Puta para todas as horas, todos os desesperos. Desesperos que ela mesma criava e que, caridosa, nos amparava debaixo de suas saias pontiagudas e concretas. A verdade, é não quero me levantar hoje. Não posso. Se me colocar de pé não sei o que virá primeiro. Um tombo. Um desmaio. Ou simplesmente, um vômito insosso, guardado no caminho para o estômago. Não. Não vou descer ainda mais. Hoje não. Vou continuar aqui, soterrado pelas cobertas. Debaixo de meus escombros. Esperar pela bonança é algo doloroso quando estamos no meio de uma tempestade. Mas ela há de vir. Ou simplesmente serei levado por essas águas amargas. Por minha vida amarga. Minha boca amarga.
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— Preciso de água.
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Água limpa. Água pra curar essa ressaca infindável. Mas não há como curá-la. A não ser que me afogue e por fim derrote a mim mesmo. A vida é ácida do lado de cá. É ácida dentro ou fora dos copos. É dor que segura o vidro. É tristesa que resfria no gelo. É alivio que me corta a goela. É ressaca que sempre me espera.

11.6.09

Polaroid

Não fazia muito tempo que comprara minha primeira câmera fotográfica. Na verdade, eu havia acabado de comprá-la. Se é que podia chamar aquilo de câmera. Bom, pra mim estava ótimo.
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Ainda trabalhava no comércio quando cometi meu primeiro “delito”. Meti a mão no caixa e levei boa parte da grana do dia. Dei sumiço nas boletas de controle, picotando-as em pedaços no banheiro do shopping: flagrante descarga abaixo. Detonei as vendas do micro e pronto! Mais um crime perfeito. Os vendedores eram uns idiotas mesmo, e o movimento, quase sempre infernal, ajudava a que todos perdessem o controle. Menos eu: o caixa. Cargo de confiança. Bem... Foda-se! Não pedi para que a depositassem em mim. Da próxima vez, que entrevistem meus pais para o emprego. Enfim, passei na lojinha em frente ao mercado e comprei uma Polaroid. Sabe como é, sonho de infância. O puto do “primo” rico tinha todas essas merdas: Atari, Revell, bonequinhos do He-mam quando o desenho ainda nem passava por aqui, e a porra da Polaroid. Fora o ar condicionado, que me fez chorar de raiva certa noite quando dormi em um de seus apartamentos. O cara tinha tudo! Quer dizer, tudo menos uma família estruturada. Já eu, apenas a família. No entanto, era bom voltar pra casa e rever meus pais, por mais que estivessem sempre brigando por alguma coisa. A situação era ruim. No entanto, ainda assim, estavam juntos ao apagar das luzes. E quando se é criança, isso faz uma grande diferença.

Para falar a verdade, ele nem era primo pra valer. A mãe dele é que namorava com um primo do meu pai. E eu, passava os fins de semana em sua casa fazendo-lhe companhia como (uma espécie de brinquedo que não se pode comprar) um amigo. Comíamos costeleta de porco, batata frita e arroz Uncle Ben's em quase todas as refeições, mais um dos caprichos do primo. De sobremesa, um sundae do McDonald`s recém chegado de fora. Lembro-me que as filas davam voltas no quarteirão e os sanduíches ainda vinham em caixinhas de isopor. Bons tempos... quando ainda se comia um McFish com uma fatia inteira de cheddar. Enfim, escolhi a máquina mais retro. Tinha que ser igual a da minha infância... Quero dizer, da infância dele. Levei de quebra duas caixas de filme, além da que vinha com a câmera. Tudo por uma mixaria. Não sei se acabei ficando rico ou o passado pobre demais. O vendedor ficou satisfeito. P.A. 3 e quem sabe alguma bonificação por ter se livrado daquela porcaria. Com a câmera em punho, o que fazer? Pensei. As opções eram muitas. Só quem em minha cabeça vazia, vinham apenas imagens de mulheres mortas, fotografadas completamente nuas por seus assassinos em poses estranhamente sexy e bizarras. Bom, não iria matar ninguém por enquanto. Naquela época, devido aos meus impulsos, tinha medo até mesmo de chegar perto de uma mureta ou loja de armas. Uma propensão ao suicídio rondava minha cabeça e atiçava as piores idéias. Deixei que o tempo e as decepções maturassem isso em mim para me tornar o que sou hoje. No entanto, não pensava em encerrar com ninguém naquela ocasião, por pior que fossem as pessoas que me rodeavam. Na verdade, acho que sempre cativei esse tipo de gente. Era o instinto conquistando futuros alvos. Pensei na menina bonitinha da loja ao lado. Não, era muito pequena. Tinha que ser alguém de pernas grandes. Queria várias poses eróticas e pra isso, me desculpem as baixinhas, mas, não dá. Pensei na menina safada da outra rua descartando-lhe logo em seguida. Tinha a língua grande demais e acabaria falando o que não devia por aí. Não estava a fim me esconder de ninguém no futuro. Estava feliz. Tinha acabado de comprar minha câmera. Meu primeiro revolver. Tinha que ser um bom alvo. Um bom alvo, para um bom tiro. Alguém que merecesse a luz dos meus flashes. Ia ter de trabalhar para ganhar a fama. Deitar na cama ia ser apenas o começo.

Pensava em deixar para depois e escolher com calma minha futura mira, quando ao sair do shopping ouço uma buzina soar por detrás de minha cabeça. Um Escort branco, conversível e caindo aos pedaços, avançou reticente, junto ao acostamento. O carro me acompanhou até a saída para o ponto de ônibus. Era a vendedora da loja em frente. A garota me encarava toda vez que mexia na vitrine. Abaixava o máximo que conseguia, espremida entre os vidros, ajeitando uma coisa ou outra e mirando a bunda para a vidraça principal. A calcinha fio dental, contornava-lhe o cofrinho alvo, apresentando-o de antemão a um sorriso, sempre que possível. Estranho não ter pensado nela de cara, cujas pernas só não eram maiores que as minhas. Seus cabelos curtos e a voz arrastada convidaram-me a uma carona, que a princípio recusei. Não queria queimar meu “filme” saindo montado naquela lata velha. Deixei que desse a volta no estacionamento e me reencontrasse na rua, do lado de fora. Longe dos curiosos, ela buzina outra vez. Paro e lhe encaro. Ela me faz um sinal e completa o convite com um: Vem... numa voz baixa, quase rônrona por detrás do volante. Olho para os lados, confiro a hora e dou de ombros.

— Tudo bem.

Ela sorri com malícia e abre a porta para saltar. Queria que eu levasse o carro. Disse que não. Não sabia dirigir. Ela riu. Eu também. Dei a volta e entrei pelo carona. Bati a porta e perguntei:
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— Ta indo pra onde?
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— Pra onde você me levar. — disse sorrindo.
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Ouvi o clique que faltava para colocá-la na mira.
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— Estou indo testar isso. — Disse apontando para a sacola enrolada no colo.
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— Quer ir...
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— O que é isso?
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— Uma arma. — disse.
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Ela pareceu assustada.
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— Quer vir comigo? — Completei.
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— Tudo bem, desde que o alvo não seja eu. — Ela sorriu assustada.
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— Quando chegarmos lá, eu decido.
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— Lá a onde?
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— Bom... Vai depender de você. Tem muitos motéis por aqui. Conhece algum? — Disse ao tirar a câmera da sacola.
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Ela riu.
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— Todos! — Exclamou por debaixo de uma gargalhada rouca e descontraída.
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— É isso... Parte pro matadouro que eu preparo a munição.

6.6.09

O Andarilho - Quarto Dia

— Eu preciso salvar o menino. Ele não fez nada. Ele não fez... Eu preciso salvá-lo. — Foi tudo o que o andarilho conseguiu cuspir pela boca seca e cortada. E olha que à tarde já havia caído. Mas a tremedeira e a temperatura elevada do corpo lhe aprisionavam a consciência num lugar escuro. Bem longe dali.
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A mulher o havia encontrado desmaiado sobre o acostamento. Treze, seu filho menor, encontrara a mochila vazia e com aquelas queimaduras pretas em formatos de garra. Ele sabia quem a havia esvaziado.
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— Se havia uma bagagem cheia por aqui, havia um burro para carregá-la. — Disse o garoto caminhando mais à frente, encontrando o burro logo a seguir. Correu para casa e avisou sua mãe sobre o homem caído na estrada.
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— Preferi trazer a bolsa, pois achei mais útil. E pelo que vi no rosto do coitado, mesmo que eu conseguisse arrasta-lo até aqui, não sei se resistiria mais do que sua bagagem. — Disse atirando a mochila sobre a cama sem perceber o peso extra que carregara num dos bolsos.
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Tentou pescar uma pitada de sal de um mediano pote de barro sobre a mesa, quando levou um tapa sobre a mão.
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— Deixe isso para Eles à noite, ou quer acabar como seu pai?
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— Ele não teve culpa, só não queria alimentar esses miseráveis como você faz. Ele fez aquilo para tentar nos salvar.
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— Cale a boca Treze, e me leva até onde encontrou o tal homem. Pode ser que ele carregue um pouco sal nos bolsos. Com o que já temos, vamos poder dormir em paz por mais alguns dias. Não seria bom, não ser mais acordado por aquelas cutucadas nos ombros?
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O garoto abaixou levemente a camisa e observou as grandes queimaduras em formatos circulares sobre o ombro. A palidez tomou conta de seu rosto. As lágrimas empoçaram em sues olhos e, antes de deixar que sua mãe às vissem escorrer, tirou uma lasca da broa de palha e caminhou apressado à saída.
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— Ele está sobre o acostamento principal. Se quiser traze-lo pra cá, é melhor andar logo, pois a tarde não demorará a cair.
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Depois de o haverem trazido e lhe empurrado goela abaixo uns pedaços de broa com pequenos goles dágua, ele havia dito aquelas coisas estranhas, sem sentido. Ao menos para eles, não o faziam, ainda. O cobriram com um pano de juta e, quando a noite começou a cair, levaram a vasilha de barro para fora do buraco onde passavam os dias e a viraram sobre a soleira da grossa porta de madeira, espalhando o sal por toda a entrada.
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— Dou-lhes o pó que alimenta a alma em troca do descanso de nossos corpos. Não nos acordem essa noite, pois amanhã nos encontraremos novamente. — Ela riscou uma cruz sobre a faixa de sal e um círculo na entrada da porta. Trancou-a rapidamente e afastou-se em tempo de ouvir as batidas fortes e os arranhões contra a madeira. Vultos avermelhados dançavam por baixo da porta.
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De repente, o silêncio. Ela sabia que Eles os deixariam em paz ao menos aquela noite. Então, abriu novamente a porta enquanto Treze lhe passava apressado uma caneca de água fervente. Jogou-a sobre onde antes havia espalhado o sal e agradeceu ao ver a fumaça amarelada subir e empestear a casa com aquele cheiro de fósforo queimado. Naquele instante, o corpo do andarilho voltou a tremer. Uma força brutal empurrou a porta, atirando a mulher de encontro ao chão. Treze observava assustado uma grande sombra que a atravessava e queimava o chão.
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— Não! Meu ombro... Pelo Tempo, está queimando! — Gritou o andarilho ao ser despertado.
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O fogo que fervia a água se apagou, e a noite implacável finalmente entrou.

1.6.09

Ponto de Fuga

"Já fazia algum tempo desde meu último encontro com a safada da Lia. Lembro que naquele dia, a noite foi longa. O banho acabou demorando mais que necessário e, mesmo na hora de deitar, ainda carregava para cama aquela dor cólica expandindo do saco para todos os lados."

Texto na íntegra... Fuga: aqui!

31.5.09

Fim do Mês

"Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco."
A Revolução dos Bichos (1962) - George Orwell